Há alguns anos fiz parte de uma produção muito bonita da ópera Paride ed Elena de C.W. Gluck. Interpretava Paride, um papel masculino longo e exigente, numa encenação dirigida pela coreógrafa Clara Andermatt que concedeu ao espectáculo uma movimentação em palco muito elegante e original, criando momentos de diálogo corporal bailado.

O cenário era simples mas muito eficaz: um piano vertical velho, meio desconstruído para que uma das personagens pudesse inclusivamente passar por dentro dele; um banco de piano de tampo redondo também bastante velho e vários estrados nivelados a alturas diferentes que iam sendo alterados durante o espectáculo para criar diversas dinâmicas.

Foi um período de ensaios maravilhoso, elenco incrível, equipa técnica e assistentes de palco maravilhosos… Tudo pronto para a estreia. Mas antes: ENSAIO GERAL ABERTO À IMPRENSA.

Tudo corria bem: silêncio na plateia;  marcações e luzes todas corretas; alterações de cenário na perfeição; musicalmente tudo bastante bem; estado de um dos elementos cénicos: duvidoso…

Num dos momentos mais bonitos de interlúdio musical, em que o coro desempenhava uma coreografia que terminava numa espécie de escultura humana, a minha personagem e o meu par romântico assistiam do estrado mais alto: ela de pé, eu sentada no banco velho (bastante velho!). Eis que sinto um ranger estranho do banco e mexi-me ligeiramente para me certificar do mesmo; novo ranger nada bom indício; até que lanço um olhar esbugalhado à minha colega de palco que se ia sentar a seguir, mas, naturalmente, não foi suficiente para lhe passar pela cabeça que eu estava a tentar alertá-la para o facto de o banco ranger e, sendo ela a próxima a sentar-se, deveria ter cuidado. Acaba a coreografia e chega a minha vez de me levantar, numa fala (recitativo cantado) do meu par romântico. Foi o tempo de ela respirar para cantar e eu cair estatelada no chão perante um banco desfeito!

(deixo espaço para a vossa imaginação…)

Prosseguindo… Levantei-me num abrir e fechar de olhos como se nada fosse, a escultura humana tremia por todos os lados tal era a tentativa dos meus colegas que a compunham de segurarem uma gargalhada, e a minha colega que cantava teve de fazer das tripas coração para conseguir continuar como se nada fosse… Como se costuma dizer: “The show must go on!”. Divertida como sou, precisei olhar para todos os lados menos para ela – que cantava para mim – porque estava a ser assaltada por uma vontade enorme de rir.

Já da plateia, os jornalistas com certeza registavam o momento hilariante… Dito e feito!

Dias mais tarde, a propósito de outra produção, dei uma entrevista a um jornalista muito simpático que, percebendo que eu fazia parte da produção de Paride ed Elena, me disse muito animadamente “Ah pois, eu estive lá no ensaio geral onde aquela desgraçada caiu do banco!”

Resposta imediata, seguida de uma enorme gargalhada que me caracteriza:

“A desgraçada, era eu!”

 

 

Reportagem RTP sobre a Produção de Páris e Helena