Lembro-me perfeitamente do dia em que conheci a L. Em casa do meu primeiro Professor de Canto, o Pedro Telles. Eu já tinha terminado o meu mestrado, estava num dia de folga de ensaios e concertos, e passei por casa do Pedro para uma visita. Aí cruzei-me com uma menina, sua aluna, de cabelo castanho claro, por volta dos seus 10 anos, creio, e com ar tímido. Logo se apressou o Pedro a elogiá-la; tão habitual nele quando está encantado com a evolução dos seus alunos. Se há Professor que vibra com os seus discípulos e as suas conquistas é Ele. Se há Professor dedicado, é ele.

Não tardou a convidar-me para o próximo recital que ia organizar em sua casa e no qual a L. iria cantar. Para além dela, teria o prazer de ouvir outras alunas mais velhas que eu já conhecia.

Recordo ter ficado entusiasmada com a ideia e fazer de tudo para conseguir estar presente. No dia cheguei pouco antes da hora marcada; ambiente acolhedor, não só pelas luzes, mas porque o espaço faz lembrar um museu de peças antigas e é extremamente bem cuidado.
O recital começou; feliz por ali estar, desta vez, do outro lado, a ouvir e a deliciar-me a observar tudo, relembrando os tempos em que eu era sua aluna, pequenita, e ficava nervosa nos seus recitais. Tão giro ver outros na posição que me era mais comum, a de aluna-intérprete.

Eis que chega a vez da L. e ela canta “Voi che sapete” de Mozart da ópera Le Nozze di Figaro. Quando dei por mim tinha os olhos humedecidos e uma lágrima escorreu pouco depois. Recuei no tempo e vi-me na idade da L. – ligeiramente mais velha, pois comecei com o Pedro aos 13 anos – a cantar precisamente aquela ária. Cheia de sonhos, brilho nos olhos e sem imaginar as voltas que a vida iria dar e que me tornaria cantora lírica profissional. Senti-me feliz porque aquela menina tinha encontrado o Pedro e decidido dar os seus primeiros passos no Canto com ele, tal como eu.

No fim do belíssimo recital, no qual todos os intervenientes estiveram brilhantes, fui cumprimentar a tímida L. e os pais. Até hoje me lembro das palavras do Pai:

“Marina, foi através de uma entrevista sua, onde falou orgulhosamente do seu professor Pedro Telles, que viemos atrás dele para que a L. pudesse começar a ter aulas.”

Não podia ter ficado mais feliz ao ter percebido que, sem saber, tinha inspirado e orientado o percurso de uma menina de 10 anos de cujos olhos brotavam sonhos…

por Marina Pacheco

[Fotografia: Tales of Light]