A base principal da produção da voz cantada é a respiração. Se esta não estiver adequada compromete toda a restante técnica vocal podendo em casos mais extremos originar uma patologia vocal. Para perceber onde o terapeuta da fala especialista em voz pode intervir é necessária uma compreensão da fisiologia da respiração.

Na voz cantada é essencial realizar uma respiração o mais adequada e controlada possível, quer na fase da inspiração, quer na fase da expiração, pois o fluxo de ar expiratório é a principal fonte de energia da voz.

A inspiração

Os principais músculos da inspiração no canto são o diafragma e os intercostais externos, podendo ter como acessórios outros músculos. Os músculos inspiratórios acessórios serão recrutados, para além dos principais, se existir uma maior necessidade de volume de ar.

Na inspiração, devido essencialmente à participação do músculo do diafragma e intercostais externos, o tórax move-se em torno de 3 planos: horizontal, frontal e o sagital. O plano horizontal implica um movimento de rotação externa das costelas durante a inspiração e um movimento de rotação interna na expiração. No plano frontal existe um de estreitamento das costelas inferiores na expiração e afastamento na inspiração. No plano sagital ocorre uma extensão do tórax na inspiração e uma flexão na expiração. Estes movimentos nestas 3 direções devem ocorrer de forma mais ou menos evidente porque o aumento do volume do tórax durante a inspiração deve acompanhar o aumento do volume pulmonar e vice-versa. Na inspiração, em simultâneo aos movimentos do tórax, ocorre a contração do diafragma originando um movimento descendente deste músculo e, consequentemente, a região abdominal expande-se anterior e lateralmente.

A expiração

Quando a inspiração termina, inicia-se a expiração. Os principais músculos que participam na expiração são os músculos abdominais como os oblíquos externos, oblíquos internos e transverso do abdómen e os músculos intercostais internos. Podem ainda participar outros músculos acessórios da expiração. O reto abdominal também é um músculo expiratório, mas participa apenas na voz de insistência ou de alerta e, consequentemente, do esforço vocal.

No início da expiração, os músculos inspiratórios intercostais externos, participam nesta fase e contraem-se para neutralizar as forças de relaxamento retráteis mantendo a pressão pulmonar e o fluxo expiratório necessários para o início da vibração das pregas vocais. Assim, os intercostais internos ajudam a manter a posição das costelas afastadas (igual à posição do final da inspiração) e atrasam o recuo do diafragma à sua posição de repouso, permitindo estender a exalação. No geral esta posição dura pouco tempo e nesta fase os músculos expiratórios não participam. Não deve haver tensão para manter a posição do tórax no final da inspiração, pode ser perigoso para a voz, de um modo geral é necessário um postura adequada, mas com o tronco flexível.

À medida que a expiração decorre, existe uma progressiva diminuição do volume pulmonar, os músculos inspiratórios relaxam-se progressivamente e os músculos expiratórios iniciam a sua participação na expiração. Os músculos abdominais começam, em associação com as forças retráteis, a ser recrutados para ajudar a diminuir o volume pulmonar, mantendo constante o fluxo expiratório. Resumidamente, ajudam a controlar a velocidade da expiração na fonação. Nesta fase sente-se um recuo progressivo e lento do abdómen, com a participação dos músculos oblíquos externos, oblíquos internos e transverso do abdómen, ocorrendo em simultâneo o recuo progressivo do diafragma e uma descida lenta e progressiva do tórax. Quando o ar se esgota, a gestão de forças do volume pulmonar também se esgota e os músculos abdominais contraem-se, especificamente o músculo reto abdominal, de forma a manter o fluxo expiratório até ao final da vocalização cantada chegando à fase de esforço vocal. Deve-se recorrer a esta fase o menos possível. A expiração termina e inicia-se um novo ciclo.

Desmistificar o mito de “apoiar com o diafragma”

No meu trabalho com cantores apercebo-me que existe, no geral, a ideia errada de que é necessário forçar o ar a sair para fora dos pulmões com a contração dos músculos abdominais, mais concretamente o reto abdominal, devido à ideia de “apoiar com o diafragma”. Quando o reto abdominal entra em funcionamento, o que acontece é uma constrição da glote, ou seja, a união das pregas vocais com tensão, que geralmente ocorre na realização de um grande esforço, como pegar ou empurrar um objeto pesado, durante um grito, durante o parto, mas não é adequado para cantar. Quando contraímos o músculo reto abdominal durante o canto estamos a comprometer a nossa técnica vocal e a prejudicar as pregas vocais, sendo um perigo para a saúde vocal. Então, é importante reter que o diafragma apenas participa na inspiração, como foi descrito em cima. Não é possível controlar diretamente este músculo involuntário para cantar a partir dele. São os músculos abdominais obliquo externo, obliquo interno e transverso que controlam a velocidade de saída do ar expiratório, juntamente com os músculos intercostais internos, durante o canto.

O terapeuta da fala e o trabalho com o cantor

O Terapeuta da Fala especialista em Voz pode ajudar a otimizar a voz no canto em vários níveis, sendo um deles a respiração, porque a sua formação inclui a anatomia e a fisiologia da voz bem como algumas das áreas de pedagogia vocal, podendo ser um trabalho realizado como complemento às aulas de canto, contribuindo assim para a saúde e longevidade vocal do cantor.

 

Referências bibliográficas:

Le Huche e Allali (data). La voix: anatomie et physiologie des organes de la voix et de la parole. 3ª édition. Paris (2001).

Michael, D. (2010). Dispelling Vocal Myths. Part 1: “Sing From Your Diaphragm!”. Journal of Singing, 66(5): 547-551.

Mendes, A., Ibrahim, S., Vaz, I. e Valente, T. (2018). EAVOCZ: Escala de Apreciação da Voz Cantada. Fundação Calouste Gulbenkian.

Guimarães, I. (2007). A Ciência e a Arte da Voz Humana Alcabideche: Escola Superior de Saúde do Alcoitão.

por Inês Silvestre

Instagram: @vocologista_inesilvestre
Terapeuta da Fala formada pela Escola Superior de Saúde do Alcoitão. Mestre em Ciências da Fala e da Audição pela Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro. Certificação em Thérapie Manuelle Appliquée à l’Ortophonie – La Thérapie Manuelle au Service de la Mobilité, pela Ósteovox. Certificação em Estill Voice Training System – Nível I e II. Experiência profissional na área de voz desde 2005, dedica-se à reabilitação e otimização da voz cantada e da voz falada. Atualmente membro da equipa do departamento de voz da Sociedade Portuguesa de Terapia da Fala. Vive e trabalha em Coimbra em hospital público e em clínica privada.