Era miúda quando a minha mãe resolveu oferecer-me umas férias diferentes. Longe da cidade, onde sempre vivi, e num país diferente. Num Castelo no Luxemburgo, tive a possibilidade de estar em contacto com a natureza, com pessoas de diferentes nacionalidades e com uma realidade distinta da que me era familiar.

Através de uma entidade ligada à evolução e trabalho espirituais ficamos instaladas no próprio Castelo e desenvolvemos um processo diário de self-care, de rotinas saudáveis, de contacto com a agricultura, com histórias de vida de diferentes pessoas que estavam ali com o mesmo propósito: trabalhar o seu “eu” e absorver o que de melhor o mundo tem para nos dar.

Nesse contacto diário diversificado e inspirador, tive a oportunidade de conhecer e conviver, ao longo dos largos dias que lá permanecemos, com uma senhora relativamente jovem e a sua filha que devia rondar os seus 10 anos. Eu era pouco mais velha, mas brincava imenso com ela. Sei que eram espanholas, que tinham um sorriso fácil e que a mãe usava um lenço na cabeça para esconder a falta de cabelo. Não demorou muito até sabermos que enfrentava um cancro em fase já avançada e que a cura não era uma hipótese.

Apesar do dramatismo da situação, recordo que não me senti assim tão abalada. Hoje questiono se era a inocência e a praticidade a falarem mais alto ou se era aquilo, que acredito ser uma consciência que nos é intrínseca e que nos tentam retirar ao longo do crescimento em sociedade, de que a vida são ciclos e não são iguais para todos, pois assim os escolhemos antes de vir a este mundo. É um assunto delicado, controverso até, mas facto é que eu não me angustiei com aquilo, sentindo apenas um grande carinho e vontade de aproveitar todos os momentos com aquelas pessoas.

Numa das salas do castelo havia um teclado e, claro está, crianças e adolescentes rondavam o mesmo à procura de um espacinho para o aproveitarem. Até que, de repente, fico sozinha e posso cantar um bocado – a minha ligação ao canto já vinha desde pequena, tendo participado num programa para a RAIUNO em 1994, com apenas 8 anos.

Resolvi cantar uma música que adoro, não só pela melodia, mas também pela mensagem: “Somewhere over the Rainbow”. Estava envolta nos meus questionamentos técnicos de imperfeição para aqui, imperfeição para ali, quando a porta se entreabre e vejo a senhora do lenço de cores suaves na cabeça e sorriso doce no rosto. Coloca a mão no peito, no lugar do coração e diz-me “Obrigada! Muito obrigada!”. Sem fala e de sorriso na alma, percebi que há muito mais para além do simples “cantar”. Também nesse momento despertei para o impacto que a minha escolha profissional poderia ter e como poderia tocar os outros com total entrega e verdade no meu Canto.

Nunca mais ouvi falar da senhora, perdi contacto com a menina também. Acredito que a sua alma estará a ouvir um “Somewhere over the Rainbow” numa sala com piano algures no “céu”…

por Marina Pacheco

[Fotografia: Carlos Moreno]