Em final de 2018, tive a honra de poder integrar os Projetos Educativos da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Numa coprodução com a Chapelle Musicale Reine Elisabeth, a Fundación Albéniz — Escuela Superior de Música Reina Sofía e com o apoio da ENOA e do Programa Europa Criativa da União Europeia, a FCG levou a cena um espetáculo muito especial baseado na ópera de W.A. Mozart, Die Zauberflöte. O nome dado ao projeto foi “Era uma vez… A Flauta Mágica!”. Com música de Ana Seara e excertos desta tão conhecida ópera mozartiana, os três cantores e a pianista do elenco deram vida a diferentes personagens, criando momentos verdadeiramente deliciosos. O André Henriques, o Marco Alves do Santos, a Inês Mesquita e eu divertimo-nos imenso durante os ensaios orientados pela maravilhosa coencenadora Roxana Haines, num trabalho de interpretação absolutamente encantador, e desafiador ao mesmo tempo. Foram dias de trabalho dedicado e muita cooperação entre todos.

Sendo um projeto que aposta na música clássica para crianças, as récitas foram apresentadas em horários simpáticos para um fim-de-semana cultural em família. De manhã e à tarde, durante dois dias, recebemos imensas crianças que tiveram a oportunidade de criar uma máscara de pássaro, num curto atelier de trabalhos manuais que precedia o espetáculo. De seguida, na sala onde já os esperávamos “em cena”, entravam de sorriso rasgado e puxando pais, tios e avós para se sentarem rapidamente na almofada mais apelativa. O conceito era criar uma proximidade connosco, intérpretes, com o cenário e com a música, por isso a ideia de se apresentarem as récitas numa sala com todos ao mesmo nível e onde os espectadores, miúdos e graúdos, se sentavam todos em almofadas espalhadas pelo chão. Era nossa missão interagir com todos, levá-los a fazerem algumas tarefas que propúnhamos e conseguir o silêncio total quando necessário. É a magia das artes do palco, sobretudo quando se trata de concertos participativos.

Entre momentos cómicos, instantes de surpresa ou até mais assustadores, formos presenteados com gargalhadas, exclamações sonoras e recções absolutamente espontâneas que nos trouxeram, ao fim de quatro espetáculos, uma sensação plena de dever cumprido e de termos deixado memórias bonitas por quem nos visitou na Fundação Calouste Gulbenkian.

Exemplo disso foi uma fotografia recebida numa mensagem de telemóvel, enviada por um dos membros da equipa, largas semanas depois. A imagem mostrava o espelho retrovisor de um carro, algures na cidade de Lisboa, onde estava pendurada uma máscara de pássaro igual às que eram criadas por crianças e pais no atelier que precedia os nossos espetáculos. Tão bom deixar uma marca por onde passamos…

É maravilhoso perceber que enquanto artistas temos essa bonita possibilidade de fazer chegar, a diferentes faixas etárias, esta paixão pela música dita erudita. A música clássica é de facto acessível para crianças quando se tem por detrás uma equipa criativa e uma produção como a da Fundação Calouste Gulbenkian.

por Marina Pacheco

[fotografia do cartaz do concerto]